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O AEROPLANO DE PANO
Para quem não atentasse, era apenas um monte de ferragens coberto de poeira acumulada pelo tempo. Quem olhasse para aquele "escombro" estático no fundo do hangar frequentado por garbosas máquinas de voar, não imaginava a história que ali existia.
Uma história de amor entre um piloto e um belo aeroplano de cores suaves, livres a voar sobre campos verdejantes; a relação de um ser humano capaz de dar vida e personalidade a uma avião. A opção por uma máquina mais moderna, coberta de metal brilhante, com poder de cobrir distâncias em tempos menores pôs fim aquela relação.
Lá foi o "aviãozinho" parar em mãos menos experientes. Entradas de roda, cavalos de pau, até o dia em que veio o triste fim. Aquele pouso comprido, suas longas asas insistindo em voar pelo excesso de velocidade, a valeta no final da pista e a pilonagem violenta.
Ali terminou sua história de vôos para a imobilidade no fundo do hangar.
Num belo dia, uma silhueta se esgueirando entre um imponente Centurion e um Bonanza aproxima-se com atenção daquilo que seria uma sucata. Acaricia a ferragem limpando delicadamente a poeira do manche ovalado onde estão, impressas em relevo, as letras que formam a palavra "Taylorcraft".
Assim nasceu uma nova relação homem-máquina. O Taylorzinho voltou a ganhar vida com roupas e pinturas novas, e o carinho que somente um pai consciente dá a seu filho adotivo.
Sua nova morada é um vale encantado onde tem como companhia clássicos que, como ele,ganharam vida apenas um dia através das mãos daqueles que dedicam todo o seu tempo a um sonho.
Em belas manhâs de sol, seu ronco ecoa feliz pelo vale despertando espíritos apaixonados pela forma mais simples e mais pura de voar... num clássico aeroplano "coberto de pano".